segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Herói de Guarda-Roupa

Olho pro teto e vejo o mundo todo bem acima de mim. Pessoas chegando e partindo, sorrindo e chorando, trabalhando e dormindo, fingindo e sentindo. Observo em pensamento o modo como o mundo se acostumou à lógica dessa dicotomia que separa as coisas e as pessoas em dois polos e valoriza sempre o que ou quem está à direita.
Homem e mulher, branco e negro, rico e pobre, privado e público, patrão e empregado... Será que sempre foi assim? Procuro resposta nos livros didáticos, mas por lá, encontro a história de outros povos em destaque e nossos índios e heróis em algumas poucas memórias. Por mais que meus pais digam “Lugar de aprender é na escola!” e o Estado proclame que ela é uma instituição extremamente necessária para a minha formação intelecto-social, foi além dos muros que separavam-me das ruas e não muito além das paredes do meu quarto que aprendi o que a maioria dos meus colegas de turma não aprenderam e muitos outros não aprenderão por lá. Para isso, contei com a ajuda de alguns super heróis que você não encontrará nos quadrinhos da Marvel.
Desconstruindo essa visão polarizada, Jacques Derrida, um dos herói-filósofos que conheci, nos mostra que a lógica do pensamento moderno é marcada por essas dicotomias que limitam, implicitamente, nossa visão de mundo. Fomos acostumados a pensar dessa forma e nos imaginar dentro dela, mas quando não nos identificamos com nenhum dos lados, passamos a entender que esses polos não são singulares, pois são fraturados internamente. Cada polo contém um pouco do outro de uma forma reprimida e desviada. Existe o homem, mas existem homens diferentes. Existe a mulher, mas existem mulheres diferentes. Destruindo esse pensamento binário, ficamos um passo à frente na batalha contra o reducionismo.
Outra super-heroína que conheci foi a estudiosa Judith Butler, com ela aprendi que ao entendermos a diferença entre gênero e sexualidade (vale enfatizar que a desigualdade não se limita à questão de gênero), percebemos que trabalhamos sobre o assunto “numa matriz heterossexual”, contudo ela (apud Mac An Ghaill, p. 198) diz que
... é crucial manter uma conexão não-causal e não-redutiva entre gênero e sexualidade. Exatamente devido ao fato de a homofobia operar muitas vezes através da atribuição aos homossexuais de um gênero defeituoso, de um gênero falho ou mesmo abjeto, é que se chama os homens gays de “femininos” ou se chama as mulheres lésbicas de “masculinas”.
Em sua teoria sobre a origem da desigualdade social, o francês Jean-Jacques Rousseau, herói iluminista, apresenta dois tipos de desigualdade: “A natural ou física, em que consideramos as diferenças biológicas (de idade, saúde, força, qualidades do espírito e da alma). A outra, que pode ser chamada de desigualdade moral ou política, porque depende de uma espécie de convenção e que é estabelecida, ou pelo menos autorizada, pelo consentimento dos homens. Esta consiste nos diferentes privilégios de que gozam alguns em prejuízo de outros, como ser mais ricos, mais honrados, mais poderosos do que os outros ou mesmo fazer-se obedecer por eles.” (Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens, ROUSSEAU, p. 33)
Rousseau faz uma crítica à sociedade moderna, contra a exploração do homem pelo homem, a desvalorização dos princípios éticos e morais, a troca do “ser” pelo “ter”, entre outros pontos negativos a partir de uma análise do homem primitivo e de toda a trajetória que percorreu até chegar aos tempos modernos. O pensador nos mostra que a desigualdade está no próprio homem, pois ele não sabe usar corretamente os instrumentos de que dispõe para se organizar em seu meio social, desrespeitando a liberdade individual, ignorando a ingenuidade e a solidariedade que nascem com o ser humano e ignorando também a igualdade que se manifesta em toda a natureza quando se sabe viver livre de todos os males e vícios que são privilegiados na sociedade moderna.
A desigualdade de gênero coloca homens e mulheres numa espécie de campo de batalha, que ao meu ver, não deveria existir. A busca por igualdade de gênero não implica numa “guerra de sexos”, muito menos deve se tornar um conflito hegemônico. Ser igual não é passar de oprimido para opressor, é poder exercer seus direitos, é ser respeitado como ser humano. E está na constituição, temos o direito à igualdade, o direito à liberdade cultural e de expressão, o direito de ir e vir, entre outros que são, em sua maioria, ignorados pelos governantes e por nós mesmos. Entretanto, não podemos negar, muito menos ignorar que não são as minorias (negros, homossexuais, mulheres) os “privilegiados” em nossa sociedade. Um outro herói, muito conhecido por estudiosos/as e feministas, Michel Foucault, quebra esse conceito convencional de “poder” e posse, observando o poder mais como uma estratégia, não sendo um “privilégio” de alguns, ou algo de que o indivíduo possa se apropriar.  Segundo a teoria do “biopoder”, os efeitos que esse poder causa é que deveriam ser o foco de nossa atenção, pois ele faz parte de um todo, de técnicas, manobras, de uma ampla rede que constitui nossa sociedade, que são frequentemente contestadas, refutadas e discutidas. Sem a resistência e liberdade daqueles sobre os quais o poder está sendo exercido, o que teríamos seria uma relação de violência e o poder não existiria.
Nosso conceito de diferença parte de princípios básicos biológicos, passando por indicadores sociais como gênero, classe social, aparência física, etnia, sexualidade, etc. Quando falamos de gênero, logo imaginamos uma mulher e um homem e, sim, essas diferenças existem, eles são biologicamente diferentes. Mas partir desse princípio biológico de desigualdade para “justificar” a desigualdade social existente entre eles, que é fruto do sistema patriarcal capitalista de classes que, para manter sua hegemonia, tenta excluir todo e qualquer ideal de igualdade (que pertence ao sistema oposto, socialista), todos mínimos vestígios da primeira forma de organização social, que muitos antropólogos, estudiosos e pensadores modernos ignoram, que se baseava no sistema matriarcal em que a mulher possuía o “poder” sobre o clã, era a anciã, produzia, cuidava de todos e era sexualmente livre, visto que não existia o conceito familiar que conhecemos hoje, onde existe o pai de família, a mulher e os filhos. Não existia a miséria nesses grupos, nenhuma criança era mais privilegiada que outra, todas eram tratadas igualmente, eram todos irmãos, e todos trabalham e viviam pelo clã, existia uma unidade e não partes de um todo. Toda essa parte da história foi criminosamente ignorada e excluída, o acesso às obras que tratam do assunto é limitado e completamente complexo.
Enquanto isso, nossos livros continuam tratando do que não é nosso, nossas crianças continuam sendo ensinadas sobre um sistema que não foi feito pra elas, onde não podem exercer o livre arbítrio, onde dogmas religiosos tiram delas o direito à posse do próprio corpo, onde adultos apontam o que é errado e o que é o certo a ser feito segundo o “conceito” deles, onde seus pais as expulsam de casa, as jogam na rua, onde recebem olhares tortos por não estarem vestidas e nem informadas ao modo de seu tempo, onde jovens se tornam mães ainda na adolescência, onde homens se julgam no direito de estuprar mulheres por elas serem um “sexo inferior” ao deles, onde homossexuais sofrem violência, são oprimidos, se matam, ou são mortos por intolerância, onde índios são esquecidos e marginalizados, onde negros são tratados como uma raça menos capaz intelectualmente, onde falta respeito, falta amor, onde falta cuidado, falta carinho, existe concreto. E eu continuo olhando pro teto cheguei à conclusão de que nossos heróis somos nós mesmos, talvez eu saia do meu quarto quando o ar lá fora me deixar respirar a minha história ou quando não formos apenas intenções de nós mesmos.



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