Olho pro teto e vejo o mundo todo
bem acima de mim. Pessoas chegando e partindo, sorrindo e chorando, trabalhando
e dormindo, fingindo e sentindo. Observo em pensamento o modo como o mundo se
acostumou à lógica dessa dicotomia que separa as coisas e as pessoas em dois
polos e valoriza sempre o que ou quem está à direita.
Homem e mulher, branco e negro,
rico e pobre, privado e público, patrão e empregado... Será que sempre foi
assim? Procuro resposta nos livros didáticos, mas por lá, encontro a história
de outros povos em destaque e nossos índios e heróis em algumas poucas
memórias. Por mais que meus pais digam “Lugar de aprender é na escola!” e o
Estado proclame que ela é uma instituição extremamente necessária para a minha
formação intelecto-social, foi além dos muros que separavam-me das ruas e não
muito além das paredes do meu quarto que aprendi o que a maioria dos meus
colegas de turma não aprenderam e muitos outros não aprenderão por lá. Para
isso, contei com a ajuda de alguns super heróis que você não encontrará nos
quadrinhos da Marvel.
Desconstruindo essa visão
polarizada, Jacques Derrida, um dos herói-filósofos que conheci, nos mostra que
a lógica do pensamento moderno é marcada por essas dicotomias que limitam,
implicitamente, nossa visão de mundo. Fomos acostumados a pensar dessa forma e
nos imaginar dentro dela, mas quando não nos identificamos com nenhum dos
lados, passamos a entender que esses polos não são singulares, pois são
fraturados internamente. Cada polo contém um pouco do outro de uma forma
reprimida e desviada. Existe o homem, mas existem homens diferentes. Existe a
mulher, mas existem mulheres diferentes. Destruindo esse pensamento binário,
ficamos um passo à frente na batalha contra o reducionismo.
Outra super-heroína que conheci
foi a estudiosa Judith Butler, com ela aprendi que ao entendermos a diferença
entre gênero e sexualidade (vale enfatizar que a desigualdade não se limita à
questão de gênero), percebemos que trabalhamos sobre o assunto “numa matriz
heterossexual”, contudo ela (apud Mac An Ghaill, p. 198) diz que
... é crucial manter uma conexão
não-causal e não-redutiva entre gênero e sexualidade. Exatamente devido ao fato
de a homofobia operar muitas vezes através da atribuição aos homossexuais de um
gênero defeituoso, de um gênero falho ou mesmo abjeto, é que se chama os homens
gays de “femininos” ou se chama as mulheres lésbicas de “masculinas”.
Em sua teoria sobre a origem da
desigualdade social, o francês Jean-Jacques Rousseau, herói iluminista,
apresenta dois tipos de desigualdade: “A natural ou física, em que consideramos
as diferenças biológicas (de idade, saúde, força, qualidades do espírito e da
alma). A outra, que pode ser chamada de desigualdade moral ou política, porque
depende de uma espécie de convenção e que é estabelecida, ou pelo menos
autorizada, pelo consentimento dos homens. Esta consiste nos diferentes privilégios
de que gozam alguns em prejuízo de outros, como ser mais ricos, mais honrados,
mais poderosos do que os outros ou mesmo fazer-se obedecer por eles.” (Discurso
Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens, ROUSSEAU, p. 33)
Rousseau faz uma crítica à
sociedade moderna, contra a exploração do homem pelo homem, a desvalorização
dos princípios éticos e morais, a troca do “ser” pelo “ter”, entre outros
pontos negativos a partir de uma análise do homem primitivo e de toda a
trajetória que percorreu até chegar aos tempos modernos. O pensador nos mostra
que a desigualdade está no próprio homem, pois ele não sabe usar corretamente
os instrumentos de que dispõe para se organizar em seu meio social,
desrespeitando a liberdade individual, ignorando a ingenuidade e a
solidariedade que nascem com o ser humano e ignorando também a igualdade que se
manifesta em toda a natureza quando se sabe viver livre de todos os males e
vícios que são privilegiados na sociedade moderna.
A desigualdade de gênero coloca
homens e mulheres numa espécie de campo de batalha, que ao meu ver, não deveria
existir. A busca por igualdade de gênero não implica numa “guerra de sexos”,
muito menos deve se tornar um conflito hegemônico. Ser igual não é passar de
oprimido para opressor, é poder exercer seus direitos, é ser respeitado como
ser humano. E está na constituição, temos o direito à igualdade, o direito à
liberdade cultural e de expressão, o direito de ir e vir, entre outros que são,
em sua maioria, ignorados pelos governantes e por nós mesmos. Entretanto, não
podemos negar, muito menos ignorar que não são as minorias (negros,
homossexuais, mulheres) os “privilegiados” em nossa sociedade. Um outro herói,
muito conhecido por estudiosos/as e feministas, Michel Foucault, quebra esse conceito
convencional de “poder” e posse, observando o poder mais como uma estratégia,
não sendo um “privilégio” de alguns, ou algo de que o indivíduo possa se
apropriar. Segundo a teoria do
“biopoder”, os efeitos que esse poder causa é que deveriam ser o foco de nossa
atenção, pois ele faz parte de um todo, de técnicas, manobras, de uma ampla
rede que constitui nossa sociedade, que são frequentemente contestadas,
refutadas e discutidas. Sem a resistência e liberdade daqueles sobre os quais o
poder está sendo exercido, o que teríamos seria uma relação de violência e o
poder não existiria.
Nosso conceito de diferença parte
de princípios básicos biológicos, passando por indicadores sociais como gênero,
classe social, aparência física, etnia, sexualidade, etc. Quando falamos de
gênero, logo imaginamos uma mulher e um homem e, sim, essas diferenças existem,
eles são biologicamente diferentes. Mas partir desse princípio biológico de
desigualdade para “justificar” a desigualdade social existente entre eles, que é
fruto do sistema patriarcal capitalista de classes que, para manter sua
hegemonia, tenta excluir todo e qualquer ideal de igualdade (que pertence ao
sistema oposto, socialista), todos mínimos vestígios da primeira forma de
organização social, que muitos antropólogos, estudiosos e pensadores modernos
ignoram, que se baseava no sistema matriarcal em que a mulher possuía o “poder”
sobre o clã, era a anciã, produzia, cuidava de todos e era sexualmente livre,
visto que não existia o conceito familiar que conhecemos hoje, onde existe o
pai de família, a mulher e os filhos. Não existia a miséria nesses grupos,
nenhuma criança era mais privilegiada que outra, todas eram tratadas
igualmente, eram todos irmãos, e todos trabalham e viviam pelo clã, existia uma
unidade e não partes de um todo. Toda essa parte da história foi criminosamente
ignorada e excluída, o acesso às obras que tratam do assunto é limitado e
completamente complexo.
Enquanto isso, nossos livros
continuam tratando do que não é nosso, nossas crianças continuam sendo
ensinadas sobre um sistema que não foi feito pra elas, onde não podem exercer o
livre arbítrio, onde dogmas religiosos tiram delas o direito à posse do próprio
corpo, onde adultos apontam o que é errado e o que é o certo a ser feito segundo
o “conceito” deles, onde seus pais as expulsam de casa, as jogam na rua, onde
recebem olhares tortos por não estarem vestidas e nem informadas ao modo de seu
tempo, onde jovens se tornam mães ainda na adolescência, onde homens se julgam
no direito de estuprar mulheres por elas serem um “sexo inferior” ao deles,
onde homossexuais sofrem violência, são oprimidos, se matam, ou são mortos por
intolerância, onde índios são esquecidos e marginalizados, onde negros são
tratados como uma raça menos capaz intelectualmente, onde falta respeito, falta
amor, onde falta cuidado, falta carinho, existe concreto. E eu continuo olhando
pro teto cheguei à conclusão de que nossos heróis somos nós mesmos, talvez eu
saia do meu quarto quando o ar lá fora me deixar respirar a minha história ou
quando não formos apenas intenções de nós mesmos.